Anvisa aprova o atogepanto (Aquipta) para prevenção da enxaqueca episódica e crônica: o que muda na prática clínica
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou, em 8 de setembro de 2026, o registro do Aquipta (atogepanto), indicado para adultos com pelo menos quatro episódios mensais de enxaqueca. A decisão foi publicada por meio da Resolução RE 3.458/2026 no Diário Oficial da União. Para o neurologista, o clínico e o médico de família que atendem cefaleia no consultório, a aprovação do atogepanto amplia de forma concreta o arsenal de tratamento preventivo da enxaqueca no Brasil, com um medicamento oral, de tomada única diária e desenhado sobre a fisiopatologia da doença. wwwwww
Este artigo do FGMED reúne o que o médico precisa saber sobre o atogepanto: mecanismo de ação, evidência dos estudos de fase 3, perfil de paciente candidato, posologia, segurança e o lugar da droga entre os preventivos já disponíveis.
O que exatamente a Anvisa aprovou
O registro concedido ao Aquipta cobre a prevenção da enxaqueca em adultos. O critério de indicação descrito pela agência é a presença de pelo menos quatro episódios mensais da doença, o que abrange tanto a enxaqueca episódica quanto a enxaqueca crônica. Segundo a Anvisa, o atogepanto bloqueia uma via envolvida na transmissão da dor e na fisiopatologia da enxaqueca, prevenindo o aparecimento das crises, e os estudos de desenvolvimento mostraram redução significativa do número de dias mensais de enxaqueca em comparação ao placebo nas duas formas da doença. wwwwww
A leitura prática é direta: até aqui, boa parte da profilaxia da enxaqueca no Brasil era feita com fármacos reposicionados de outras classes, como topiramato, propranolol, amitriptilina, valproato e candesartana. A própria Anvisa reconhece que várias das opções disponíveis não atuam especificamente nos mecanismos fisiopatológicos da doença e posiciona o Aquipta como nova opção oral para prevenção da enxaqueca episódica e crônica. www

Atogepanto e a classe dos gepantos: o bloqueio do receptor CGRP
O atogepanto é um antagonista do receptor do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), uma molécula pequena de uso oral, com meia-vida de eliminação em torno de 11 horas e concentração plasmática máxima atingida entre 1 e 2 horas. Essa farmacocinética explica o esquema de dose única diária e o início de efeito relativamente rápido. New England Journal of Medicine
O CGRP é um neuropeptídeo central na fisiopatologia da enxaqueca, envolvido na vasodilatação e na sensibilização trigeminovascular. Bloquear seu receptor é hoje um dos alvos terapêuticos mais bem estabelecidos em cefaleia. A diferença dos gepantos em relação aos anticorpos monoclonais anti-CGRP, como erenumabe, galcanezumabe e fremanezumabe, está na via de administração e na flexibilidade: administração oral diária, sem necessidade de aplicação subcutânea mensal ou trimestral, e suspensão de efeito mais rápida quando é preciso interromper o tratamento.
Para o médico que acompanha a evolução da neurologia clínica, esse é um bom momento para revisitar o tema de forma estruturada. As pós-graduações do FGMED em áreas como Neurologia, Clínica Médica e Medicina da Dor trabalham exatamente esse tipo de atualização terapêutica aplicada ao consultório, com corpo docente assistencial e formato compatível com a rotina de plantões.
A evidência por trás da aprovação: ADVANCE, PROGRESS e ELEVATE
O dossiê clínico do atogepanto se apoia em três ensaios de fase 3, randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo, todos com 12 semanas de tratamento.
ADVANCE (enxaqueca episódica). Adultos com 4 a 14 dias de enxaqueca por mês foram randomizados para atogepanto 10 mg, 30 mg, 60 mg ou placebo, em dose única diária, por 12 semanas. A redução média de dias mensais de cefaleia foi de 3,9 dias no braço de 10 mg, 4,0 dias no de 30 mg e 4,2 dias no de 60 mg, contra 2,5 dias no placebo, com significância estatística em todas as doses. Mais de 60% dos participantes tratados com 60 mg alcançaram redução de pelo menos 50% nos dias mensais de enxaqueca ao longo das 12 semanas, desfecho considerado clinicamente relevante nas diretrizes de desenvolvimento de preventivos. Atogepant for the Preventive Treatment of Migraine | New England Journal of Medicine +2
PROGRESS (enxaqueca crônica). Foram incluídos adultos com pelo menos um ano de história de enxaqueca crônica, 15 ou mais dias mensais de cefaleia e 8 ou mais dias mensais de enxaqueca no período basal, randomizados para placebo, atogepanto 30 mg duas vezes ao dia ou 60 mg uma vez ao dia. As reduções observadas foram de 6,88 dias mensais de enxaqueca com 60 mg uma vez ao dia e 7,46 dias com 30 mg duas vezes ao dia ao longo das 12 semanas. NeurologyNeurology Live
ELEVATE (falha terapêutica prévia). Esse ensaio avaliou atogepanto 60 mg uma vez ao dia em pacientes com enxaqueca episódica que já haviam falhado com 2 a 4 classes de preventivos orais convencionais, e demonstrou superioridade sobre o placebo na redução dos dias mensais de enxaqueca em 12 semanas. É o dado mais útil para o consultório real, onde o paciente que chega ao especialista costuma já ter passado por topiramato, betabloqueador e tricíclico sem resposta adequada. Neurology
Vale registrar ainda que uma análise conjunta dos três estudos mostrou benefício do atogepanto 60 mg sobre placebo já nas primeiras quatro semanas de tratamento, tanto em desfechos de frequência quanto em medidas funcionais. Neurology
Quem é o candidato ao atogepanto no consultório
O perfil que mais se beneficia, considerando indicação aprovada e evidência disponível:
Adultos com quatro ou mais dias de enxaqueca por mês e impacto funcional documentado por instrumentos como MIDAS ou HIT-6.
Pacientes com enxaqueca crônica, incluindo aqueles com cefaleia por uso excessivo de medicação, cenário em que o preventivo eficaz é parte central da estratégia de desmame do analgésico.
Pacientes com falha, intolerância ou contraindicação a duas ou mais classes de preventivos orais, situação em que a evidência do ELEVATE dá respaldo direto.
Pacientes com comorbidades que limitam os preventivos clássicos, como o paciente com depressão e ganho ponderal em uso de amitriptilina, o asmático ou bradicárdico com restrição a propranolol, ou a paciente em idade fértil com preocupação teratogênica ligada ao valproato.
Como sempre em enxaqueca, a decisão terapêutica se sustenta em diário de cefaleia, expectativa realista de resposta e reavaliação em 8 a 12 semanas.
Posologia, tolerabilidade e pontos de atenção
As doses estudadas foram 10 mg, 30 mg e 60 mg uma vez ao dia, além do esquema de 30 mg duas vezes ao dia na enxaqueca crônica. A dose de 60 mg uma vez ao dia é a mais amplamente documentada nos três ensaios de fase 3. A posologia final autorizada no Brasil deve ser conferida na bula aprovada pela Anvisa antes da prescrição.
O perfil de tolerabilidade nos ensaios foi favorável. A descontinuação por eventos adversos com a dose de 60 mg no ADVANCE ficou em 2,7%. Os eventos adversos mais relatados na classe são constipação, náusea e fadiga, em geral leves e autolimitados. Dois pontos merecem atenção do prescritor: o metabolismo hepático via CYP3A4, que exige ajuste ou cautela com indutores e inibidores potentes, e o ajuste em insuficiência renal grave. A prescrição em gestação e lactação segue sem dados robustos de segurança. nih
Onde o atogepanto se encaixa no arsenal preventivo brasileiro
A chegada do atogepanto não desloca automaticamente os preventivos de primeira linha, mas reorganiza a conversa sobre a segunda linha. O que o médico ganha é uma opção oral, com alvo fisiopatológico definido, tomada diária e efeito perceptível já nas primeiras semanas, em um cenário em que a alternativa mecanicamente equivalente eram os anticorpos monoclonais anti-CGRP injetáveis.
Na prática, três perguntas passam a fazer parte da consulta de cefaleia: o paciente já falhou com preventivos orais convencionais, ele tolera ou prefere a via oral em vez da injetável, e o custo e a cobertura viabilizam a manutenção do tratamento por pelo menos três meses. O acesso, aliás, é a variável mais crítica no Brasil. Registro sanitário não significa incorporação ao SUS nem cobertura obrigatória pela saúde suplementar, e esse é o próximo capítulo a acompanhar junto à Conitec e à ANS.
Esse tipo de raciocínio, que junta evidência, regulação e viabilidade de acesso, é o que separa o médico que apenas lê a notícia daquele que sabe aplicá-la. É também o eixo das pós-graduações do FGMED, reconhecidas pelo MEC e voltadas exclusivamente para médicos com CRM ativo.
Perguntas frequentes sobre o atogepanto (Aquipta)
O atogepanto serve para tratar a crise de enxaqueca?
Não. A indicação aprovada é preventiva, para redução da frequência das crises em adultos com pelo menos quatro episódios mensais. O tratamento agudo continua sendo feito com triptanos, anti-inflamatórios e antieméticos conforme o caso.
Qual a diferença entre atogepanto e os anticorpos monoclonais anti-CGRP?
Ambos atuam na via do CGRP. O atogepanto é uma molécula pequena de uso oral diário e ação sobre o receptor, enquanto erenumabe, galcanezumabe e fremanezumabe são anticorpos injetáveis de aplicação mensal ou trimestral e meia-vida longa.
O atogepanto funciona na enxaqueca crônica?
Sim. No estudo PROGRESS, houve redução de 6,88 dias mensais de enxaqueca com 60 mg uma vez ao dia e de 7,46 dias com 30 mg duas vezes ao dia em 12 semanas. Neurology Live
Em quanto tempo o efeito aparece?
A análise conjunta de ADVANCE, ELEVATE e PROGRESS mostrou benefício do atogepanto 60 mg sobre placebo já nas quatro primeiras semanas de tratamento. Neurology
O medicamento já está disponível nas farmácias brasileiras?
A aprovação corresponde ao registro sanitário. A comercialização efetiva depende de preço aprovado pela CMED e da logística do fabricante, e a cobertura por planos de saúde ou pelo SUS exige avaliações posteriores.
Onde consultar o ato oficial?
Na Resolução RE 3.458/2026, publicada no Diário Oficial da União, e na página de notícias da Anvisa.
Sobre o FGMED
O FGMED é uma instituição de ensino voltada exclusivamente à formação de médicos, com mais de 400 pós-graduações reconhecidas pelo MEC e um ecossistema de educação médica que já formou mais de 150 mil médicos. As turmas são exclusivas para médicos com CRM ativo, com corpo docente assistencial e conteúdo construído a partir da prática clínica, não da teoria isolada. Para o médico que quer acompanhar mudanças como a aprovação do atogepanto com profundidade suficiente para decidir prescrição, o caminho é a formação estruturada. Conheça as pós-graduações do FGMED e escolha a área que sustenta a sua atuação.

