Diretriz ESC 2026: nova classificação da insuficiência cardíaca

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Diretriz ESC 2026 de insuficiência cardíaca: fim da fração de ejeção levemente reduzida e modelo por estágios

Se você acompanha cardiologia, precisa reprogramar o raciocínio que usa no consultório desde 2021. A nova diretriz ESC 2026 de insuficiência cardíaca foi publicada no European Heart Journal e apresentada no ESC Congress 2026, em Munique, e ela não é uma atualização cosmética. O documento reformula a classificação da insuficiência cardíaca pela fração de ejeção do ventrículo esquerdo, introduz uma classificação por estágios com foco maior em prevenção, reconhecimento precoce e intervenção oportuna, e propõe uma nomenclatura revisada para as terapias. escardio

Para o médico brasileiro, o recado prático é direto: mudou a forma de nomear o paciente, mudou a forma de nomear o tratamento e mudaram algumas classes de recomendação que sustentam a prescrição no dia a dia.

O que muda na classificação da insuficiência cardíaca por fração de ejeção

Esta é a mudança que mais impacta a rotina ambulatorial. A classificação anterior dividia a insuficiência cardíaca em três fenótipos pela FEVE. A diretriz de 2026 removeu a categoria de fração de ejeção levemente reduzida, que ia de 41% a 49%, e passou a descrever apenas dois fenótipos: insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, agora definida como FEVE abaixo de 50%, e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, definida como FEVE de 50% ou mais. EurekAlert!

A justificativa é fisiopatológica e terapêutica. A coordenadora da força-tarefa, Marianna Adamo, explicou que o fenótipo levemente reduzido havia sido criado em diretrizes anteriores para dar visibilidade a pacientes que costumavam ficar de fora dos ensaios clínicos, mas que esses pacientes compartilham fisiopatologia semelhante e se beneficiam de tratamentos semelhantes aos da FEVE reduzida. EurekAlert!

Na prática, isso resolve um vício de interpretação que virou rotina nos consultórios. Uma FEVE de 45% não deve mais sugerir doença leve: a fração de ejeção é uma medida ventricular, não uma graduação de gravidade ou prognóstico. FEVE de 45% é ICFEr e exige terapia plena. Quem trabalha com classificação da insuficiência cardíaca em laudo de ecocardiograma precisa ajustar o vocabulário já na próxima consulta. Medscape

 

O modelo por estágios A a D e a virada para prevenção

A segunda grande mudança é a adoção de um modelo de estagiamento. A diretriz passa a adotar quatro estágios de insuficiência cardíaca, indo do paciente sob risco de desenvolver a doença, no estágio A, até a insuficiência cardíaca avançada, no estágio D, o que reflete ênfase maior em prevenção e identificação mais precoce. Segundo o coordenador Lars Køber, as recomendações agora cobrem todo o espectro, da prevenção no paciente de risco ao tratamento da doença avançada. touchCARDIOCardiovascular Business

Esse ponto muda o público da diretriz. Os estágios da insuficiência cardíaca deslocam parte da responsabilidade para a atenção primária, a clínica médica e a medicina de família, porque o estágio A é essencialmente controle de fatores de risco em paciente ainda assintomático. Não é mais um documento só de cardiologista.

“Aguda” sai, “descompensada” entra

Houve também uma correção de nomenclatura clínica. A insuficiência cardíaca era descrita como crônica ou aguda, e o termo agudo foi substituído por descompensado. A revisão reconhece que a piora da função cardíaca pode ocorrer de forma gradual, e não necessariamente por deterioração súbita. Cardiovascular BusinessEMJ

Parece detalhe de vocabulário, mas não é. Insuficiência cardíaca descompensada é um termo que descreve melhor o paciente que chega ao pronto-socorro depois de semanas de piora silenciosa, e isso tem efeito direto sobre como o caso é documentado no prontuário e comunicado entre as equipes.

A nova nomenclatura das terapias: FMT, AMT e GDIT

Talvez a mudança conceitual mais profunda esteja no tratamento. A diretriz redefine o conceito de GDMT, introduzido em 2013 pela AHA e pelo ACC, e o subdivide em dois componentes: terapia medicamentosa fundamental, a foundational medical therapy, e terapia medicamentosa adicional, a additional medical therapy. Køber argumentou que o termo GDMT havia se tornado ambíguo depois de mais de uma década de avanços. Os tratamentos passaram a ser agrupados em terapia medicamentosa fundamental, terapia medicamentosa adicional e terapia intervencionista dirigida por diretriz, uma estrutura desenhada para continuar válida conforme novos fármacos e dispositivos surgirem. 2026 ESC Guidelines for Heart Failure Redefine Disease and Treatment Subtypes | HCPLive +2

O conteúdo de cada bloco ficou assim: a terapia medicamentosa fundamental reúne betabloqueadores, inibidores da ECA, ARNI ou BRA, antagonistas do receptor mineralocorticoide e inibidores de SGLT2 na ICFEr, e antagonistas do receptor mineralocorticoide e inibidores de SGLT2 na ICFEp. O GDMT permanece como termo guarda-chuva e engloba os dois blocos. A diretriz ainda sugere o uso da expressão terapia fundamental otimizada para se referir às maiores doses toleradas. touchCARDIOHCP Live

As recomendações que mudaram de força

Aqui estão as decisões que alteram prescrição imediatamente. A diretriz traz recomendação Classe I para antagonistas do receptor mineralocorticoide na insuficiência cardíaca crônica independentemente da FEVE, e recomendação Classe IIa para semaglutida ou tirzepatida em pacientes com ICFEp e obesidade. Também houve elevação de recomendações em situações específicas para digoxina e digitoxina na insuficiência cardíaca crônica, suporte circulatório mecânico durável e reparo mitral transcateter borda a borda. A diretriz reforça ainda o reconhecimento da insuficiência cardíaca avançada, agora classificada como estágio D, e a identificação de pacientes que precisam de avaliação especializada. European Society of CardiologytouchCARDIO

A entrada dos agonistas de GLP-1 na diretriz de insuficiência cardíaca é o sinal mais claro de que obesidade deixou de ser comorbidade de contexto e virou alvo terapêutico dentro do algoritmo da ICFEp.

Por que isso importa para a sua prática agora

A prevalência estimada da insuficiência cardíaca é de 1% a 3% da população adulta e, apesar da queda expressiva de mortalidade nas últimas três décadas, menos de 60% dos pacientes diagnosticados seguem vivos cinco anos depois. Køber observou que a carga global da doença deve aumentar com o envelhecimento populacional e com a maior prevalência de fatores de risco e de obesidade. European Society of CardiologyMedical Xpress

Três movimentos práticos para as próximas semanas:

  1. Revise os laudos e prontuários que usam o rótulo de fração de ejeção levemente reduzida e reclassifique esses pacientes como ICFEr, com a terapia que o novo enquadramento exige.
  2. Padronize o vocabulário da equipe para estágios A a D e para insuficiência cardíaca descompensada, principalmente em serviços de urgência e enfermaria.
  3. Reveja quem está sem antagonista do receptor mineralocorticoide na ICFEp, à luz da recomendação Classe I independente de FEVE.

 

Atualização em cardiologia é competência clínica, não hobby

Uma diretriz que reescreve classificação, nomenclatura e classe de recomendação em um único documento mostra o tamanho do problema: quem não tem rotina estruturada de atualização fica desatualizado em meses, não em anos. É exatamente esse o ponto que separa o médico que lê a manchete do médico que sabe aplicar a mudança no paciente da próxima consulta.

O FGMED trabalha essa camada de formação continuada em pós-graduação reconhecida pelo MEC, com mais de 400 cursos e conteúdo construído para quem já está na assistência. Para quem atua com insuficiência cardíaca, as frentes mais diretamente conectadas a esta diretriz são as pós-graduações do FGMED em Cardiologia, Clínica Médica, Medicina de Urgência e Emergência e Geriatria, áreas em que o modelo por estágios e a nova classificação da insuficiência cardíaca entram no raciocínio clínico logo na porta de entrada do paciente.

Sobre o FGMED

O FGMED é uma instituição de ensino com pós-graduações médicas reconhecidas pelo MEC, voltadas exclusivamente a médicos com CRM ativo. São mais de 400 cursos em diferentes especialidades, com metodologia pensada para o médico que precisa conciliar assistência e formação. Os títulos obtidos seguem os critérios do edital vigente de cada programa e das normas das respectivas sociedades e do CFM quanto ao registro de qualificação de especialista. Conheça as pós-graduações do FGMED e escolha a área que dialoga com a sua prática.

Bloco de FAQ (marcar como FAQPage)

O que mudou na classificação da insuficiência cardíaca na diretriz ESC 2026?
A diretriz eliminou a categoria de fração de ejeção levemente reduzida, de 41% a 49%, e passou a trabalhar com dois fenótipos: ICFEr, com FEVE abaixo de 50%, e ICFEp, com FEVE de 50% ou mais.

Por que a fração de ejeção levemente reduzida foi removida?
Porque esses pacientes compartilham fisiopatologia semelhante e respondem a tratamentos semelhantes aos da fração de ejeção reduzida, segundo a força-tarefa do ESC.

O que são os estágios A a D da insuficiência cardíaca?
É o novo modelo de estagiamento adotado pela diretriz, que vai do paciente sob risco de desenvolver a doença, no estágio A, até a insuficiência cardíaca avançada, no estágio D, com ênfase em prevenção e reconhecimento precoce.

O termo insuficiência cardíaca aguda deixou de existir?
A diretriz substituiu o termo agudo por descompensado, reconhecendo que a piora funcional nem sempre é súbita e pode ser gradual.

O que é terapia medicamentosa fundamental na diretriz ESC 2026?
É a foundational medical therapy, o bloco de tratamentos com maior força de evidência para a população geral de insuficiência cardíaca, que junto da terapia medicamentosa adicional compõe o que a diretriz mantém como GDMT.

Semaglutida e tirzepatida entraram na diretriz de insuficiência cardíaca?
Sim, com recomendação Classe IIa para pacientes com ICFEp e obesidade.

 

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