Insuficiência cardíaca: classificação, estágios e tratamento atualizado

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Insuficiência cardíaca: classificação, estágios e tratamento atualizado

Uma paciente chega ao ambulatório com fração de ejeção de 45%. Até 2025, isso era insuficiência cardíaca com fração de ejeção levemente reduzida, e o termo “levemente” fazia muita gente tratar como doença leve.

Hoje não é mais. Essa paciente tem insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida e precisa de terapia plena.

A mudança veio com a diretriz de insuficiência cardíaca da Sociedade Europeia de Cardiologia, apresentada no congresso de 2026 em Munique e publicada no European Heart Journal. Ela reescreveu classificação, nomenclatura e organização do tratamento de uma só vez, o que é raro em um documento único.

Este artigo reúne o que mudou e o que isso significa na conduta de quem atende cardiopata, seja cardiologista ou não.

A nova classificação da insuficiência cardíaca

A diretriz eliminou o fenótipo de fração de ejeção levemente reduzida, que cobria a faixa de 41% a 49%. Restaram dois fenótipos, separados por um corte único de 50%.

Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, quando a fração de ejeção do ventrículo esquerdo está abaixo de 50%.

Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, quando está em 50% ou mais.

A justificativa apresentada pela força-tarefa é direta: os pacientes na antiga faixa intermediária compartilham fisiopatologia semelhante e se beneficiam de tratamento semelhante ao dos pacientes com fração reduzida, de modo que manter três categorias complicava a prática sem ganho clínico.

Por que esse detalhe muda a conduta

A fração de ejeção é uma medida ventricular, não um indicador de gravidade ou de prognóstico. O termo “levemente reduzida” criava uma impressão de doença branda que a evidência não sustenta.

Na prática, isso significa duas coisas. Primeiro, fração de ejeção de 45% exige terapia otimizada, não acompanhamento expectante. Segundo, vale revisar os pacientes que estão rotulados com a classificação antiga no seu ambulatório, porque parte deles pode estar subtratada.

Vale lembrar também que a fração de ejeção é uma variável contínua e dinâmica. O paciente se move entre categorias ao longo do tempo, e um valor isolado não encerra a avaliação.

Os estágios A a D

A diretriz adotou um modelo de estagiamento que vai do paciente em risco até a doença avançada, com recomendações ao longo de todo esse espectro.

Estágio A é o paciente em risco, ainda sem doença estrutural e sem sintomas. Aqui a conduta é controle de fator de risco: hipertensão, diabetes, obesidade, doença coronariana, cardiotoxicidade.

Estágio B é a presença de alteração estrutural ou funcional sem sintomas de insuficiência cardíaca.

Estágio C é a insuficiência cardíaca sintomática, atual ou prévia.

Estágio D é a doença avançada, com sintomas refratários ao tratamento otimizado.

 

Esse recorte tem uma implicação que costuma passar batida: o estágio A joga parte da responsabilidade para a atenção primária e para a clínica médica. Quem controla hipertensão e diabetes em paciente assintomático já está tratando insuficiência cardíaca em estágio A, mesmo sem usar esse nome.

Aguda virou descompensada

O termo “insuficiência cardíaca aguda” foi amplamente substituído por “insuficiência cardíaca descompensada”.

A mudança não é cosmética. “Aguda” sugere um evento súbito, e em boa parte dos pacientes a piora é gradual, com declínio progressivo da função cardíaca ao longo de semanas. O novo termo descreve melhor esse curso clínico e muda a forma de escrever o prontuário e de comunicar o caso na passagem de plantão.

As três camadas de tratamento

Aqui está a mudança conceitual que mais altera o vocabulário do dia a dia. O que antes era tratado como um bloco único de terapia medicamentosa orientada por diretriz foi subdividido.

Terapia medicamentosa fundamental, que é a base do tratamento e deve ser instituída e otimizada em todos os pacientes elegíveis.

Terapia medicamentosa adicional, acrescentada conforme perfil, comorbidade e resposta.

Terapia intervencionista orientada por diretriz, que organiza as indicações de procedimento e dispositivo.

 

Separar essas camadas resolve um problema prático comum: o paciente que recebe uma medicação adicional antes de ter a terapia fundamental otimizada. A estrutura nova torna essa inversão visível.

Recomendações específicas que mudaram

Antagonistas do receptor mineralocorticoide passaram a ter recomendação Classe I na insuficiência cardíaca crônica, independentemente da fração de ejeção. Isso significa que também valem para o paciente com fração preservada, o que amplia bastante a população elegível.

Semaglutida e tirzepatida receberam recomendação Classe IIa para pacientes com insuficiência cardíaca sintomática, fração de ejeção preservada e obesidade, com o objetivo de melhorar peso, capacidade de exercício e qualidade de vida, independentemente do status de diabetes.

Houve ainda recomendações elevadas em situações específicas para digoxina e digitoxina na insuficiência cardíaca crônica, para suporte circulatório mecânico durável e para o reparo transcateter borda a borda da valva mitral.

O que revisar no seu ambulatório

Quatro ações concretas que decorrem direto dessas mudanças.

Reclassifique os pacientes com fração de ejeção entre 41% e 49% e reavalie se a terapia deles está no nível que a nova classificação exige.

Cheque quais pacientes com fração preservada estão sem antagonista do receptor mineralocorticoide.

Padronize o vocabulário da equipe para os estágios A a D, principalmente em enfermaria e emergência, onde a comunicação entre turnos depende de termo comum.

Troque “aguda” por “descompensada” no registro e na passagem de caso.

Uma ressalva necessária

A diretriz discutida aqui é da Sociedade Europeia de Cardiologia. No Brasil, a referência assistencial é a diretriz vigente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, que pode divergir em pontos específicos e tem seu próprio calendário de atualização.

Conhecer o documento europeu é necessário, porque ele pauta a literatura e costuma antecipar movimentos. Mas a conduta formal deve seguir o protocolo institucional do seu serviço e a diretriz brasileira em vigor.

Perguntas frequentes

Qual é a nova classificação da insuficiência cardíaca?
A diretriz ESC 2026 passou a reconhecer dois fenótipos: fração de ejeção reduzida, com fração abaixo de 50%, e fração de ejeção preservada, com fração de 50% ou mais. A categoria de fração levemente reduzida, de 41% a 49%, foi eliminada.

Fração de ejeção de 45% é insuficiência cardíaca leve?
Não. Com a nova classificação, 45% é fração de ejeção reduzida e exige terapia otimizada. A fração de ejeção é uma medida ventricular, não um marcador de gravidade.

O que são os estágios A a D da insuficiência cardíaca?
Um modelo que vai do paciente em risco, sem doença estrutural, até a doença avançada com sintomas refratários, passando pela alteração estrutural assintomática e pela doença sintomática.

Por que “insuficiência cardíaca aguda” deixou de ser o termo usado?
Porque em muitos pacientes a piora é gradual e não súbita. “Descompensada” descreve melhor esse curso clínico.

Antagonista do receptor mineralocorticoide vale para fração preservada?
Sim. A diretriz estabeleceu recomendação Classe I para essa classe na insuficiência cardíaca crônica independentemente da fração de ejeção.

Essa diretriz vale no Brasil?
Ela é a referência europeia e pauta a literatura internacional. A conduta formal no Brasil deve seguir a diretriz vigente da Sociedade Brasileira de Cardiologia e o protocolo da instituição.

Para aprofundar

Insuficiência cardíaca é a condição que mais exige atualização estruturada em cardiologia, justamente porque classificação e terapia mudaram de forma substancial em um único documento. Quem não tem rotina de atualização fica desatualizado em meses, não em anos.

A pós-graduação em Cardiologia do FGMED (https://fgmed.org/pos-graduacao/cardiologia/) aprofunda diagnóstico, estagiamento e otimização terapêutica da insuficiência cardíaca.

Para quem recebe esse paciente descompensado na porta de entrada, a pós em Medicina de Urgência e Emergência (https://fgmed.org/pos-graduacao/medicina-de-emergencia/) trata a estratificação e o manejo inicial. E para quem acompanha o paciente idoso com múltiplas comorbidades, a pós em Geriatria (https://fgmed.org/pos-graduacao/geriatria/) aborda a insuficiência cardíaca dentro da polifarmácia e da fragilidade.

Veja também: Pós-graduação em Cardiologia para médicos: duração, carga horária, valor e como escolher (https://fgmed.org/blog/pos-graduacao-em-cardiologia-para-medicos-duracao-carga-horaria-valor-e-como-escolher/)

E a cobertura do lançamento: Diretriz ESC 2026 e a nova classificação da insuficiência cardíaca (https://fgmed.org/blog/diretriz-esc-2026-nova-classificacao-da-insuficiencia-cardiaca/)

Sobre o FGMED

O FGMED é uma instituição de ensino com pós-graduações médicas reconhecidas pelo MEC, voltadas exclusivamente a médicos com CRM ativo, com mais de 400 cursos em diferentes especialidades. Conheça as pós-graduações do FGMED (https://fgmed.org/pos-graduacoes/).

Está pronto para um upgrade
na sua carreira?

    Quero mais

    INFORMAÇÕES


    Preencha o formulário
    e em breve entraremos em contato.

    Pronto!
    Agora é só aguardar o nosso contato.

    Você concorda com o uso de todos os cookies?