A elevação atípica de casos de intoxicação por metanol após consumo de bebidas adulteradas no Brasil em 2025 acendeu o alerta clínico e epidemiológico. Para o médico da linha de frente, reconhecer precocemente o quadro, acionar o antídoto adequado e decidir pelo timing de hemodiálise pode ser a diferença entre recuperação e sequelas graves, como a perda visual. Este guia resume o que fazer, baseado em orientações recentes do Ministério da Saúde e em literatura toxicológica atualizada.

Contexto epidemiológico
Entre agosto e outubro de 2025, o estado de São Paulo notificou dezenas de casos, com óbitos confirmados e uma sala de situação nacional criada para monitoramento. Esse volume supera o padrão histórico brasileiro e sugere adulteração de bebidas em diferentes pontos de venda. Para o clínico, isso significa elevar o grau de suspeição diante de sintomas “disproporcionais” após ingestão alcoólica.
Fisiopatologia resumida
A toxicidade do metanol decorre do seu metabolismo hepático em formaldeído e, sobretudo, em ácido fórmico. O acúmulo de formiato produz acidose metabólica, hiato aniônico alto e lesão no nervo óptico, explicando as alterações visuais e o risco de cegueira. Bloquear a álcool desidrogenase rapidamente é o objetivo central do antídoto.
Quadro clínico e sinais de alerta
O período de latência costuma ser de 12 a 24 horas após a ingestão. O paciente pode relatar embriaguez persistente não usual, desconforto gástrico, náuseas, vômitos e dor abdominal. A progressão inclui cefaleia, tontura, confusão e hiperventilação associadas à acidose. Alterações visuais como visão borrada, “campo nevado” e fotofobia são sinais vermelhos, com risco de cegueira.
Diagnóstico e exames essenciais
Na suspeita, colha gasometria arterial para aferir pH e bicarbonato, eletrólitos completos, função renal e hepática. Calcule o gap osmolar e o anion gap. A dosagem de metanol plasmático, quando disponível, confirma o diagnóstico e auxilia na decisão por diálise. Rotinas de descontaminação como carvão ativado não têm papel prático. Documente a exposição, o tempo desde a ingestão e o tipo de bebida consumida.
Tratamento passo a passo
Inicie suporte básico avançado com garantia de via aérea, ventilação e estabilidade hemodinâmica. Para o antídoto, o padrão-ouro internacional é o fomepizol, inibidor competitivo da álcool desidrogenase. Como o fomepizol não tem registro no Brasil, as orientações atuais priorizam o uso de etanol farmacêutico, intravenoso ou oral, em protocolo hospitalar, para saturar a mesma enzima e impedir a formação de ácido fórmico. Quando etanol farmacêutico não está imediatamente disponível, pode-se considerar etanol de bebidas destiladas como ponte, com monitorização rigorosa.
A correção da acidose com bicarbonato de sódio deve ser feita conforme a gasometria. Utilize ácido folínico 30 mg IV a cada 6 horas por 48 horas para acelerar o metabolismo do formiato; ácido fólico pode ser alternativa conforme protocolos de toxicologia clínica. Controle convulsões com benzodiazepínicos como primeira linha.
Quando indicar hemodiálise
Considere hemodiálise nos casos com acidose metabólica grave, alterações visuais importantes, coma, convulsões, insuficiência renal aguda ou níveis elevados de metanol. A diálise remove metanol e formiato e corrige a acidose com rapidez. A decisão deve ser tomada cedo, muitas vezes em paralelo ao antídoto.
Fluxo de notificação e apoio especializado
Os casos suspeitos e confirmados após ingestão de bebida alcoólica são Eventos de Saúde Pública com notificação imediata aos canais do CIEVS. Além disso, acione o CIATox de referência para orientação terapêutica em tempo real sobre antídoto, dose e diálise. Registre posteriormente no SINAN conforme ficha de investigação de intoxicação exógena.
Conclusão
Alto índice de suspeição, antídoto precoce com etanol farmacêutico, correção agressiva da acidose, ácido folínico e decisão ágil de hemodiálise salvam visão e vida. Em 2025, qualquer “ressaca estranha” com piora após 12 a 24 horas merece avaliação estruturada e contato imediato com o CIATox.
Referências
AGÊNCIA BRASIL. Ministério da Saúde acompanha casos de intoxicação por metanol em SP. Brasília: Empresa Brasil de Comunicação, 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 3 out. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Intoxicação exógena: orientações gerais para manejo clínico e vigilância em saúde. Brasília, 2025.
CNN BRASIL. Casos de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas deixam mortos em São Paulo. São Paulo: CNN Brasil, 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 3 out. 2025.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE TOXICOLOGIA (SBTOX). Diretrizes clínicas sobre intoxicação por metanol: diagnóstico e tratamento. São Paulo, 2024.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CENTROS DE INFORMAÇÃO E ASSISTÊNCIA TOXICOLÓGICA (ABRACIT). Recomendações atualizadas para tratamento de intoxicação por metanol. Brasília, 2024.
