Microplásticos no sangue e infarto: o que um novo estudo cardiovascular revela

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Microplásticos no sangue e infarto: o que um novo estudo cardiovascular revela

Estudo recente no European Heart Journal detetou microplásticos em 84% dos pacientes com infarto agudo do miocárdio. Entenda o impacto clínico e a fisiopatologia.

A presença de microplásticos no sangue e sua possível relação com o infarto ganhou uma nova evidência científica. Um estudo publicado em julho de 2026 no European Heart Journal identificou maior frequência e concentração de micro e nanoplásticos na circulação coronária de pacientes com infarto agudo do miocárdio com elevação do segmento ST.

Os pesquisadores encontraram essas partículas em 84,2% dos pacientes com infarto, diante de 40% entre aqueles com síndrome coronariana crônica e 31,8% no grupo com artérias coronárias angiograficamente normais.

Os resultados não comprovam que os microplásticos sejam responsáveis pelo evento cardiovascular. Entretanto, reforçam a hipótese de que fatores ambientais, como poluição atmosférica, tabagismo e exposição contínua a partículas sintéticas, podem participar dos processos inflamatórios relacionados à doença arterial coronariana.

Neste artigo, analisamos os principais resultados do estudo, os mecanismos fisiopatológicos propostos e o que essa descoberta representa para a prática médica.

O que são micro e nanoplásticos?

Os microplásticos são partículas plásticas com menos de 5 milímetros. Já os nanoplásticos apresentam dimensões ainda menores, geralmente inferiores a 1 micrômetro.

Essas partículas são encontradas no ar, na água, no solo, nos alimentos e em diferentes produtos de consumo. A exposição humana pode ocorrer principalmente por ingestão e inalação.

Nos últimos anos, micro e nanoplásticos, também chamados de MNPs, foram identificados em diferentes tecidos e fluidos humanos. A crescente detecção dessas partículas despertou o interesse de pesquisadores sobre seus possíveis efeitos inflamatórios, metabólicos e cardiovasculares.

O estudo publicado no European Heart Journal

A pesquisa, publicada em 14 de julho de 2026, avaliou 61 pacientes submetidos à angiografia coronária por suspeita de doença arterial coronariana.

Os participantes foram divididos em três grupos:

  • 19 pacientes com infarto agudo do miocárdio com elevação do segmento ST, ou STEMI;
  • 20 pacientes com síndrome coronariana crônica;
  • 22 pacientes com artérias coronárias angiograficamente normais.

 

Foram coletadas amostras de sangue da circulação coronária e da circulação periférica. Para identificar e quantificar os polímeros, os pesquisadores utilizaram técnicas como cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas por pirólise e espectroscopia infravermelha direta a laser.

Também foram analisados o histórico de tabagismo, a exposição à poluição atmosférica no dia do procedimento e os níveis de exposição ao material particulado fino, o PM2,5, nos dois anos anteriores.

Trata-se de um estudo transversal e exploratório. Portanto, seus resultados permitem identificar associações, mas não estabelecer uma relação definitiva de causa e efeito.

 

Microplásticos no sangue foram encontrados em 84,2% dos pacientes com infarto

Os micro e nanoplásticos foram detectados com frequência significativamente maior entre os pacientes com STEMI:

Grupo avaliadoPresença de micro e nanoplásticos
Infarto com elevação do segmento ST84,2%
Síndrome coronariana crônica40%
Artérias coronárias normais31,8%

Além da maior frequência, os pacientes com infarto apresentaram concentrações mais elevadas e maior diversidade de polímeros.

O polietileno foi o material predominante, correspondendo a aproximadamente 97% dos polímeros identificados. Esse tipo de plástico é amplamente utilizado em embalagens, sacolas, recipientes e outros produtos de consumo.

Os pesquisadores também encontraram os mesmos tipos de polímeros no sangue periférico e coronário de cada paciente. Entretanto, as maiores concentrações foram observadas nas amostras obtidas da circulação coronária.

O estudo comprova que microplásticos causam infarto?

Não.

O estudo demonstrou uma associação entre maior carga de micro e nanoplásticos e a apresentação clínica de infarto com elevação do segmento ST. Porém, o desenho transversal, o número reduzido de participantes e a ausência de acompanhamento longitudinal impedem afirmar que essas partículas tenham causado diretamente o evento.

Também é possível que fatores associados ao infarto, como tabagismo, exposição à poluição, alterações metabólicas e inflamação sistêmica, estejam relacionados tanto à presença dos microplásticos quanto à doença cardiovascular.

Por isso, os próprios autores destacam que os resultados devem ser interpretados como evidência inicial de uma possível relação entre exposição ambiental, presença de partículas plásticas na circulação e doença arterial coronariana.

A descoberta é relevante, mas ainda precisa ser confirmada em estudos maiores, multicêntricos e prospectivos.

Como os microplásticos podem afetar o sistema cardiovascular?

A fisiopatologia ainda não está completamente esclarecida. Evidências experimentais e observacionais sugerem alguns mecanismos biologicamente plausíveis.

1. Estresse oxidativo e disfunção endotelial

Partículas muito pequenas podem atravessar barreiras biológicas e interagir com células endoteliais.

Essa interação pode favorecer a formação de espécies reativas de oxigênio, reduzir a biodisponibilidade de óxido nítrico e prejudicar a função vascular. Como consequência, pode ocorrer maior predisposição à vasoconstrição, adesão celular e progressão da aterosclerose.

2. Ativação da resposta inflamatória

Micro e nanoplásticos podem ser reconhecidos pelo organismo como partículas estranhas, estimulando macrófagos e outras células do sistema imunológico.

No estudo de 2026, os pacientes com STEMI apresentaram níveis mais elevados de interleucina-6 e fator de necrose tumoral alfa. A presença de microplásticos também ocorreu com maior frequência entre indivíduos com maior exposição à poluição atmosférica.

Esses resultados não demonstram que as partículas provocaram a inflamação, mas indicam que os fenômenos podem coexistir dentro de um contexto de maior risco ambiental e cardiovascular.

3. Progressão e instabilidade da placa aterosclerótica

A inflamação persistente exerce papel central na formação, progressão e ruptura das placas de ateroma.

Em teoria, o acúmulo de partículas sintéticas no tecido vascular poderia intensificar a atividade inflamatória local, interferir no comportamento dos macrófagos e contribuir para o enfraquecimento da capa fibrosa da placa.

Essa hipótese ganhou força após um estudo publicado em 2024 no New England Journal of Medicine. Na pesquisa, micro e nanoplásticos foram identificados em placas carotídeas removidas durante endarterectomia. A presença dessas partículas esteve associada a maior incidência de infarto, acidente vascular cerebral ou morte por qualquer causa durante o acompanhamento.

Mesmo naquele estudo, porém, a natureza observacional dos resultados não permitiu comprovar causalidade.

4. Alterações trombóticas e metabólicas

Estudos experimentais também investigam se os microplásticos podem influenciar:

  • ativação plaquetária;
  • coagulação;
  • metabolismo lipídico;
  • resposta dos macrófagos;
  • resistência à insulina;
  • produção de citocinas inflamatórias.

 

Esses mecanismos ainda estão em investigação e não devem ser interpretados como efeitos clínicos definitivamente comprovados em seres humanos.

Tabagismo e poluição atmosférica aparecem como fatores relevantes

Um dos achados mais importantes do estudo foi a relação entre a detecção de microplásticos, o tabagismo e a exposição ao PM2,5.

Na análise multivariada, o histórico de tabagismo foi o único preditor independente da presença de micro e nanoplásticos, com razão de chances de 5,69.

Isso significa que fumantes apresentaram uma probabilidade aproximadamente seis vezes maior de ter essas partículas detectadas no sangue. Entretanto, o intervalo de confiança foi amplo, o que reflete o tamanho reduzido da amostra e exige cautela na interpretação.

Todos os pacientes que reuniam tabagismo e exposição elevada ao PM2,5 apresentaram microplásticos detectáveis. Entre aqueles sem essas duas exposições, a frequência foi de 12,5%.

Os autores levantam a hipótese de que a inalação possa representar uma importante via de entrada dessas partículas no organismo. Ainda assim, são necessárias novas pesquisas para determinar quanto da carga circulante vem do ar, da água, dos alimentos ou de outras fontes.

Os microplásticos já podem ser considerados um novo fator de risco cardiovascular?

Ainda não no mesmo nível dos fatores de risco cardiovascular tradicionais.

Hipertensão arterial, diabetes, dislipidemia, tabagismo, obesidade, sedentarismo e histórico familiar possuem evidências consolidadas e fazem parte dos principais modelos de estratificação de risco.

Os micro e nanoplásticos são atualmente classificados como um possível fator ambiental emergente. A expressão é mais adequada porque ainda não existem:

  • valores de referência para concentração sanguínea;
  • exames clínicos padronizados;
  • métodos diagnósticos disponíveis para a rotina;
  • metas terapêuticas específicas;
  • intervenções comprovadamente capazes de reduzir eventos cardiovasculares por meio da diminuição da exposição aos MNPs;
  • recomendações formais para incluir essas partículas nos escores de risco.

 

Portanto, a descoberta não modifica, neste momento, as diretrizes de prevenção, diagnóstico ou tratamento da doença arterial coronariana.

O que muda na prática médica?

O estudo não justifica solicitar exames para microplásticos nem alterar tratamentos cardiovasculares estabelecidos.

Seu principal impacto clínico está no fortalecimento da chamada medicina ambiental, que considera as condições ambientais como parte relevante da avaliação de saúde.

Valorizar a história de exposição ambiental

Durante a anamnese, pode ser útil investigar:

  • local de moradia;
  • proximidade de vias com tráfego intenso;
  • exposição ocupacional a poeiras ou partículas industriais;
  • contato frequente com fumaça;
  • uso de combustíveis sólidos;
  • histórico de tabagismo ativo ou passivo.

 

Esses dados não substituem a avaliação cardiovascular convencional, mas podem ampliar a compreensão dos determinantes de risco do paciente.

Reforçar a cessação do tabagismo

A interrupção do tabagismo continua sendo uma das intervenções mais importantes para a prevenção cardiovascular.

Além dos efeitos conhecidos sobre trombose, inflamação, disfunção endotelial e aterosclerose, o novo estudo sugere que o cigarro também pode estar associado a uma maior carga de partículas plásticas circulantes.

Orientar medidas razoáveis de precaução

Ainda não há comprovação de que mudanças isoladas no uso doméstico de plásticos reduzam o risco de infarto. Mesmo assim, algumas medidas podem ser consideradas dentro de uma abordagem de precaução ambiental:

  • evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos não indicados para altas temperaturas;
  • respeitar as recomendações de uso e descarte das embalagens;
  • priorizar recipientes duráveis, como vidro ou cerâmica, quando viável;
  • evitar reutilizar embalagens plásticas descartáveis de forma prolongada;
  • reduzir o consumo desnecessário de produtos plásticos de uso único;
  • manter ambientes ventilados e reduzir o acúmulo de poeira.

 

Essas orientações devem ser apresentadas sem alarmismo e sem substituir medidas preventivas comprovadas, como controle da pressão arterial, manejo do colesterol, prática de atividade física, alimentação equilibrada e cessação do tabagismo.

Quais são as principais limitações do estudo?

A interpretação dos resultados exige atenção a algumas limitações:

Amostra pequena

A pesquisa avaliou apenas 61 pacientes. Isso reduz o poder estatístico e aumenta a possibilidade de resultados influenciados por características específicas da população analisada.

Desenho transversal

As amostras foram coletadas em um único momento. Dessa forma, não é possível determinar se a exposição ocorreu antes do desenvolvimento da doença ou se outros fatores relacionados ao infarto influenciaram os resultados.

Possíveis fatores de confusão

Tabagismo, poluição atmosférica, idade, condições metabólicas e características clínicas podem interferir tanto na presença dos microplásticos quanto no risco cardiovascular.

Ausência de desfechos longitudinais

O estudo não acompanhou os pacientes para verificar se maiores concentrações de MNPs estariam associadas a novos eventos, mortalidade ou pior prognóstico.

Campo científico ainda em padronização

A detecção de micro e nanoplásticos é tecnicamente complexa. Diferentes métodos de coleta, processamento e análise podem produzir resultados distintos.

Por isso, novos estudos deverão adotar protocolos rigorosos de controle de contaminação e métodos laboratoriais comparáveis.

O que podemos concluir?

O estudo publicado no European Heart Journal encontrou micro e nanoplásticos com maior frequência, concentração e diversidade na circulação coronária de pacientes com infarto agudo do miocárdio com elevação do segmento ST.

Também foi observada uma associação entre a presença dessas partículas, o tabagismo, a exposição ao PM2,5 e níveis mais elevados de marcadores inflamatórios.

Os dados reforçam a possibilidade de que os microplásticos façam parte do expossoma cardiovascular, conceito que reúne os diferentes fatores ambientais aos quais uma pessoa é exposta ao longo da vida.

Contudo, os resultados não comprovam que os microplásticos causem infarto e ainda não justificam mudanças nas diretrizes clínicas. O achado deve ser encarado como um novo caminho de investigação sobre as relações entre poluição, inflamação, aterosclerose e eventos cardiovasculares.

Para o médico, a principal mensagem permanece clara: reconhecer os determinantes ambientais da saúde pode complementar a avaliação clínica, mas não substitui o controle rigoroso dos fatores de risco cardiovascular já estabelecidos.

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Perguntas frequentes

Microplásticos no sangue podem causar infarto?

Ainda não há evidência suficiente para afirmar que os microplásticos causem infarto. Estudos observacionais encontraram associações entre essas partículas, inflamação, aterosclerose e eventos cardiovasculares, mas não comprovaram uma relação direta de causa e efeito.

Existe exame para detectar microplásticos no sangue?

A detecção é realizada principalmente em pesquisas, utilizando técnicas laboratoriais complexas. Atualmente, não existe exame padronizado ou recomendado para uso na prática clínica de rotina.

Os microplásticos já são considerados um fator de risco cardiovascular?

Eles são investigados como um possível fator ambiental emergente. Ainda não integram os principais escores de risco nem as diretrizes de prevenção cardiovascular.

Aquecer alimentos em recipientes plásticos aumenta o risco de infarto?

Não há evidência clínica de que esse hábito, isoladamente, aumente diretamente o risco de infarto. Evitar o aquecimento inadequado de embalagens plásticas pode ser uma medida de precaução, mas não substitui o controle dos fatores de risco cardiovascular tradicionais.

Como reduzir a exposição aos microplásticos?

É possível reduzir o uso de plásticos descartáveis, evitar aquecer alimentos em recipientes inadequados, não reutilizar embalagens descartáveis de maneira prolongada e controlar a exposição à fumaça e à poluição sempre que possível. O impacto clínico individual dessas medidas ainda está em investigação.

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