NPH para Glargina no SUS: Guia de Transição
SUS amplia a transição da insulina NPH para glargina. Veja critérios, conversão de dose, titulação e orientações práticas para médicos.
O Ministério da Saúde iniciou a ampliação nacional da transição gradual da insulina humana NPH para a insulina glargina 100 UI/mL no Sistema Único de Saúde.
Nesta etapa, o público contemplado inclui crianças e adolescentes de 2 anos a menores de 18 anos com diabetes mellitus tipo 1, além de pessoas com 70 anos ou mais com diabetes mellitus tipo 1 ou tipo 2. O acesso ocorre após avaliação clínica e prescrição médica, conforme o fluxo assistencial estabelecido em cada localidade.
Para médicos que atuam na Atenção Primária à Saúde, Endocrinologia, Clínica Médica, Pediatria ou Geriatria, a mudança exige atenção à conversão da dose, ao risco de hipoglicemia, à monitorização glicêmica e às orientações fornecidas ao paciente e aos cuidadores.
Neste artigo do FGMED, você confere os principais pontos para realizar a transição de NPH para glargina no SUS de forma segura e individualizada.
Atenção: as informações apresentadas têm finalidade educacional e não substituem a avaliação clínica individual, os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas vigentes nem os fluxos definidos pela gestão local do SUS.

Quem pode receber insulina glargina pelo SUS?
Segundo a estratégia nacional vigente, a transição está sendo realizada de forma gradual.
Nesta etapa, estão contemplados:
Crianças e adolescentes com DM1
Pacientes com diabetes mellitus tipo 1 que tenham:
idade igual ou superior a 2 anos e inferior a 18 anos.
Pessoas com 70 anos ou mais
Pacientes com:
diabetes mellitus tipo 1 ou diabetes mellitus tipo 2;
idade igual ou superior a 70 anos.
A ampliação para esse público ocorreu após a fase inicial do projeto-piloto, que havia priorizado idosos com 80 anos ou mais em alguns estados e no Distrito Federal. A Nota Técnica Conjunta nº 169/2026 consolidou a expansão para pessoas com 70 anos ou mais em todo o país.
Como ocorre o acesso?
O Ministério da Saúde informa que o acesso deve ocorrer após avaliação clínica e prescrição médica, com oferta pela rede de Atenção Primária à Saúde.
Entretanto, documentos exigidos, formulários, prazos, unidades dispensadoras e rotinas de retirada podem variar entre estados e municípios. Por isso, o médico deve consultar o protocolo da Secretaria Municipal ou Estadual de Saúde responsável pela dispensação.
NPH e glargina: o que muda no tratamento?
A insulina NPH e a insulina glargina são utilizadas como componentes basais da insulinoterapia, mas apresentam diferenças relevantes para a rotina do paciente.
| Característica | Insulina NPH | Insulina glargina 100 UI/mL |
| Perfil de ação | Apresenta maior variabilidade e pico de ação | Apresenta perfil basal mais estável |
| Frequência de aplicação | Pode exigir duas ou mais aplicações diárias | Geralmente administrada uma vez ao dia |
| Horário | Definido conforme o esquema terapêutico | Deve ser aplicada em horário fixo, pela manhã ou à noite |
| Hipoglicemia | O pico de ação pode aumentar o risco em determinados períodos | O perfil mais estável pode favorecer a redução de episódios, especialmente em pacientes vulneráveis |
| Dispositivo previsto na estratégia | Diferentes apresentações disponíveis na rede | Caneta aplicadora reutilizável, conforme organização da distribuição |
A transição busca oferecer um esquema basal mais estável, favorecer a adesão e reduzir riscos associados à complexidade da insulinoterapia, especialmente em crianças, adolescentes e pessoas idosas.
É importante destacar que a substituição da insulina basal não implica, automaticamente, alteração da insulina utilizada para cobertura prandial.
Como converter a dose de NPH para glargina?
A Nota Técnica Conjunta nº 169/2026 apresenta duas orientações principais para a conversão.
| Esquema atual de NPH | Dose inicial de glargina |
| NPH uma vez ao dia | Manter equivalência de dose, na proporção 1:1 |
| NPH duas ou mais vezes ao dia | Reduzir aproximadamente 20% da dose total diária de NPH |
A glargina deve ser administrada uma vez ao dia, em horário fixo. Nos pacientes que utilizavam NPH duas ou mais vezes ao dia, o Ministério da Saúde orienta que a aplicação ocorra preferencialmente no horário correspondente à maior dose anterior de NPH.
Passo 1: calcule a dose total diária de NPH
Some todas as doses de NPH utilizadas pelo paciente durante o dia.
Exemplo:
NPH pela manhã: 20 UI
NPH à noite: 10 UI
Dose total diária: 30 UI
Passo 2: aplique a regra de conversão
Como o paciente utiliza NPH duas vezes ao dia, deve ser considerada uma redução aproximada de 20%.
Cálculo:
30 UI × 0,8 = 24 UI
Passo 3: defina a dose inicial
A dose inicial ilustrativa seria:
insulina glargina 24 UI, por via subcutânea, uma vez ao dia, em horário fixo.
Preferencialmente, a aplicação deve ocorrer no horário correspondente à maior dose anterior de NPH. Neste exemplo, seria considerado inicialmente o horário da dose matinal.
O próprio Ministério da Saúde ressalta que esse cálculo tem caráter ilustrativo e não deve ser interpretado como prescrição padronizada. A dose precisa ser individualizada conforme glicemia de jejum, resposta clínica, alimentação, função renal, comorbidades, idade e risco de hipoglicemia.
Como titular a insulina glargina após a transição?
Após a substituição, a dose deve ser ajustada de forma individualizada, principalmente com base na glicemia de jejum.
Quando necessário, a titulação pode ser realizada em intervalos de até três dias, conforme a resposta do paciente e a avaliação clínica. A Nota Técnica não estabelece uma única regra universal de aumento ou redução em unidades para todos os pacientes.
Na prática, o acompanhamento deve considerar:
- glicemia de jejum;
- ocorrência de hipoglicemias;
- variação glicêmica durante a noite;
- alimentação e atividade física;
- função renal e hepática;
- capacidade de autocuidado;
- presença de fragilidade ou comprometimento cognitivo;
- uso concomitante de outros medicamentos para diabetes.
As metas glicêmicas devem ser individualizadas. Em pessoas idosas, especialmente nas mais frágeis, metas excessivamente rígidas podem aumentar o risco de hipoglicemia, quedas e outros eventos adversos.
Sinais de possível excesso de insulina basal
A equipe deve evitar aumentar repetidamente a insulina basal quando a glicemia de jejum já se encontra dentro da meta, mas a hemoglobina glicada permanece elevada. Essa situação pode indicar necessidade de avaliar outros componentes do tratamento, incluindo o controle pós-prandial.
Entre os sinais de alerta descritos pelo Ministério da Saúde para pacientes com DM2 estão:
- insulina basal superior a 0,5 UI/kg/dia;
- hemoglobina glicada acima da meta com glicemia de jejum no alvo;
- episódios de hipoglicemia, com ou sem sintomas;
- queda superior a 50 mg/dL entre o horário de dormir e o despertar.
- Em crianças e adolescentes com DM1, devem ser observados:
- dose basal superior a 50% da dose total diária de insulina;
- queda noturna superior a 30 mg/dL em crianças;
- queda noturna superior a 50 mg/dL em adolescentes;
- hipoglicemia associada a grande variabilidade glicêmica.
Esses achados não determinam isoladamente uma conduta, mas indicam a necessidade de reavaliar o esquema terapêutico e evitar a intensificação automática da dose basal.
Como prescrever insulina glargina no SUS?
A prescrição deve ser clara, legível e compatível com as normas locais da assistência farmacêutica.
É recomendável incluir:
Identificação do paciente
- Nome completo;
- data de nascimento;
- número do Cartão Nacional de Saúde, quando solicitado;
- peso atual, quando relevante para o acompanhamento.
Diagnóstico
Informar o diagnóstico e o código correspondente da CID-10:
E10: diabetes mellitus tipo 1;
E11: diabetes mellitus tipo 2.
A idade deve estar corretamente registrada, pois faz parte dos critérios da atual etapa de elegibilidade.
Prescrição da insulina
Especificar:
insulina glargina 100 UI/mL;
dose diária em unidades internacionais;
- via subcutânea;
- frequência de aplicação;
- horário definido;
- quantidade necessária para o período da prescrição.
Insumos necessários
Conforme o fluxo local e a necessidade do paciente, podem ser prescritos:
- agulhas compatíveis com a caneta;
- tiras reagentes;
- lancetas;
- outros materiais para automonitorização glicêmica.
Registro clínico
O prontuário deve registrar:
- esquema anterior de NPH;
- cálculo utilizado na conversão;
- dose inicial de glargina;
- orientações fornecidas;
- metas individualizadas;
- episódios prévios de hipoglicemia;
- plano de monitorização e retorno.
O Ministério da Saúde recomenda que ajustes de dose, eventos adversos e orientações sejam registrados no Prontuário Eletrônico do Cidadão, quando disponível, garantindo continuidade e segurança do cuidado.
Orientações essenciais para o paciente e os cuidadores
A prescrição, isoladamente, não garante uma transição segura. A equipe deve confirmar se o paciente ou cuidador compreendeu:
- o horário fixo de aplicação;
- a dose prescrita;
- a técnica correta de utilização da caneta;
- a necessidade de trocar a agulha a cada aplicação;
- o rodízio dos locais de aplicação;
- o armazenamento correto da insulina;
- os sinais e sintomas de hipoglicemia;
- a conduta inicial diante de uma hipoglicemia;
- a necessidade de monitorização mais frequente nas primeiras semanas;
- quando procurar a unidade de saúde ou um serviço de urgência.
O acompanhamento deve ser intensificado no início da transição, principalmente em crianças, pessoas idosas, pacientes frágeis e indivíduos com histórico de hipoglicemia.
A glargina substituirá completamente a NPH no SUS?
A mudança está sendo realizada gradualmente. Na fase atual, a prioridade são as faixas etárias estabelecidas pelo Ministério da Saúde.
A expectativa é ampliar progressivamente o público contemplado após a consolidação da oferta para crianças, adolescentes e pessoas com 70 anos ou mais. Portanto, a NPH ainda permanece disponível e necessária para pacientes que não fazem parte desta etapa ou para situações em que sua utilização continue clinicamente indicada.
Perguntas frequentes sobre a transição de NPH para glargina
A conversão de NPH para glargina é sempre feita na proporção 1:1?
Não. A equivalência 1:1 é indicada para pacientes que utilizam NPH uma vez ao dia. Quando a NPH é utilizada duas ou mais vezes ao dia, recomenda-se reduzir aproximadamente 20% da dose total diária.
A glargina deve ser aplicada pela manhã ou à noite?
Ela pode ser aplicada pela manhã ou à noite, desde que seja administrada uma vez ao dia em horário fixo. Em pacientes que usavam NPH duas ou mais vezes ao dia, pode-se priorizar o horário correspondente à maior dose anterior de NPH.
A insulina prandial também deve ser substituída?
Não automaticamente. A mudança da insulina basal não determina a troca da insulina prandial. O esquema completo deve ser reavaliado individualmente.
O paciente com DM2 e menos de 70 anos já pode receber glargina por essa estratégia?
Não está incluído no público prioritário desta etapa nacional. Entretanto, podem existir outros componentes da assistência farmacêutica, protocolos específicos ou decisões locais aplicáveis. O fluxo deve ser confirmado com a gestão de saúde responsável.
O médico precisa emitir um relatório?
A prescrição médica é necessária. Relatórios, formulários complementares e outros documentos podem ser solicitados conforme o protocolo estadual ou municipal. Por isso, não existe uma única relação documental válida para todos os municípios.
Conclusão
A transição da insulina NPH para glargina representa uma mudança relevante no manejo do diabetes pelo SUS. Para que a substituição ocorra com segurança, o médico deve identificar corretamente os pacientes elegíveis, calcular a dose inicial conforme o esquema anterior de NPH e intensificar o acompanhamento durante as primeiras semanas.
Também é fundamental individualizar as metas terapêuticas, orientar pacientes e cuidadores, monitorar sinais de excesso de insulina basal e registrar todas as decisões no prontuário.
Mais do que trocar uma apresentação de insulina, a estratégia exige organização do cuidado, educação em saúde e acompanhamento longitudinal pela Atenção Primária.
Atualização médica para os desafios da prática clínica
Mudanças nas políticas públicas, nos protocolos assistenciais e nas estratégias terapêuticas exigem atualização constante dos profissionais de saúde.
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