Rastreamento de câncer de mama: o que o não especialista precisa saber para orientar e encaminhar
Toda paciente de 43 anos que pergunta “doutor, já posso fazer mamografia?” coloca o médico diante de uma divergência que ele não criou e precisa resolver na consulta.
Porque existem duas respostas corretas no Brasil, e elas não coincidem.
A divergência, em termos exatos
O Ministério da Saúde orienta rastreamento mamográfico populacional em mulheres de 50 a 74 anos, com periodicidade bienal. A recomendação se alinha ao Código Latino-Americano e Caribenho contra o Câncer, publicado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer e pela Organização Pan-Americana da Saúde, que também indica rastreamento bienal a partir dos 50 anos. www
As sociedades de especialidade recomendam outra coisa. Para mulheres de 40 a 74 anos com risco habitual, a orientação do Colégio Brasileiro de Radiologia, da Sociedade Brasileira de Mastologia e da Febrasgo é mamografia anual. medscape
Ou seja, para uma mulher de 45 anos, uma fonte recomenda rastrear e a outra não. Nenhuma das duas está errada. Elas pesam de forma diferente o mesmo conjunto de evidências: redução de mortalidade de um lado, falso-positivo, sobrediagnóstico e exposição à radiação do outro.
O que isso significa na prática do consultório
O ponto que resolve a consulta é este: o SUS não restringe o acesso de mulheres entre 40 e 49 anos e acima de 74 anos, sem sinais ou sintomas suspeitos, que queiram fazer mamografia de rastreamento por demanda, desde que sejam orientadas por profissional de saúde sobre os possíveis riscos e benefícios. www
Traduzindo para a sua conduta: na faixa dos 40 aos 49 anos, a decisão é compartilhada, e o seu papel não é decidir pela paciente. É apresentar o que ela ganha e o que ela arrisca, e registrar essa conversa no prontuário.
Esse registro não é burocracia. É o que sustenta a sua conduta se o caso for revisto depois, nos dois sentidos: se rastreou e gerou cascata de exames, ou se não rastreou e surgiu diagnóstico tardio.
O tamanho do problema
O INCA estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no triênio 2026-2028, cerca de 215 diagnósticos por dia, e a doença representa aproximadamente 30% dos novos casos de câncer entre mulheres brasileiras, sem contar tumores de pele não melanoma. portalterradaluz
E existe um problema de cobertura que pesa mais que a discussão de faixa etária. Estudos apontam cobertura mamográfica no Brasil em torno de 30%, enquanto a OMS estima que seria necessário alcançar ao menos 70% das mulheres na faixa recomendada para impactar a mortalidade. medscape
Vale internalizar isso: a mulher de 52 anos que nunca fez mamografia é um problema maior que a discussão sobre a mulher de 45. A prioridade clínica está em capturar quem está dentro da faixa e fora do rastreamento.
Alto risco é outra conversa
As recomendações de rastreamento populacional não se aplicam a mulheres com alto risco. Nesse grupo a conduta muda, com início mais precoce e uso de ressonância, conforme o perfil.
São sinalizadores que exigem avaliação diferenciada: história familiar de câncer de mama ou ovário em parente de primeiro grau, especialmente em idade jovem, mutação conhecida em BRCA1 ou BRCA2 na família, história de radioterapia torácica prévia e antecedente pessoal de lesão de risco.
Identificar esse perfil na anamnese é tarefa do médico que está na porta de entrada, não do mastologista. Se a história de risco não for levantada na consulta geral, ela não será levantada em lugar nenhum.
O que fazer na próxima consulta
Pergunte a história familiar antes de falar de mamografia. O risco define tudo que vem depois.
Diga à paciente qual recomendação você está seguindo e por quê. Divergência entre fontes não é problema, desde que a paciente saiba onde está.
Registre a decisão compartilhada quando ela estiver na faixa dos 40 aos 49.
Confirme se a paciente dentro da faixa recomendada está em dia. Essa pergunta rende mais que qualquer discussão de protocolo.
E lembre que mamografia de rastreamento e mamografia diagnóstica são coisas diferentes. Paciente com nódulo palpável não entra em rastreamento, entra em investigação.
Para aprofundar
Quem atende mulher na atenção primária e no consultório geral toma essa decisão várias vezes por semana, muitas vezes sem formação específica em saúde da mulher.
A pós-graduação em Mastologia do FGMED (https://fgmed.org/pos-graduacao/mastologia/) aprofunda rastreamento, estratificação de risco e condução dos achados. Para quem atua na saúde da mulher de forma ampla, a pós em Ginecologia e Obstetrícia (https://fgmed.org/pos-graduacao/ginecologia-e-obstetricia/) trata o tema dentro do cuidado integral. E para quem está na porta de entrada do SUS, a pós em Medicina da Família e Comunidade (https://fgmed.org/pos-graduacao/medicina-da-familia-e-comunidade/) aborda rastreamento sob a lógica populacional.
