Vitamina B12 pré-concepcional do casal reduz defeitos congênitos: o que muda na sua consulta

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Vitamina B12 pré-concepcional do casal reduz defeitos congênitos: o que muda na sua consulta

Resumo: uma coorte prospectiva chinesa com mais de 30 mil gestações mostrou que níveis mais altos de vitamina B12 pré-concepcional, tanto da mãe quanto do pai, se associam a menor prevalência de defeitos congênitos, com relação dose-resposta. É a primeira evidência desse porte de efeito atribuível ao status nutricional paterno, e ela desloca o aconselhamento pré-concepcional da gestante para o casal.

O estudo: desenho e números

O trabalho, publicado na Annals of Internal Medicine, usou a Shanghai Preconception Cohort, que recrutou casais em 29 centros da Grande Xangai com planejamento de gestação em até um ano. Os defeitos congênitos foram identificados por ultrassonografia pré-natal, triagem neonatal de cardiopatia congênita, registros de parto e exames confirmatórios, e o desfecho primário reuniu casos confirmados entre nascidos vivos, natimortos e interrupções por anomalia fetal.De 30.052 gestações completas, 27.260 tinham biomarcadores maternos dosados antes da concepção ou até 4 meses de gestação. Foram registrados 472 defeitos congênitos, prevalência de 1,73%. As análises primárias se dividiram em uma coorte pré-concepcional de casais (3.032 casais, 73 casos) e uma coorte materna pós-concepção (17.765 mulheres, 327 casos). 2 Minute Medicine2 Minute Medicine

Esse desenho é o que dá peso ao achado. Estudos sobre suplementação pré-natal quase sempre olham apenas para a mãe e quase sempre coletam dados depois da concepção, quando a organogênese já começou. Aqui houve dosagem de biomarcadores dos dois membros do casal antes da gravidez.

O achado central: dose-resposta para a B12 materna

Concentrações mais altas de vitamina B12 materna pré-concepcional se associaram a menor chance de defeito congênito, com razão de chances de 0,81 (IC 95% 0,69 a 0,95) na comparação de 295 contra 221 pmol/L, e de 0,62 (IC 95% 0,44 a 0,88) na comparação de 443 contra 221 pmol/L.Na leitura por prevalência prevista, o gradiente é ainda mais didático: da categoria mais baixa de B12 materna (abaixo de 148 pmol/L) para a mais alta (igual ou acima de 590 pmol/L), a prevalência prevista de defeitos congênitos caiu de 49,6 para 16,2 casos por 1.000 gestações. 2 Minute MedicineAnnals of Internal Medicine

É uma diferença absoluta grande para um marcador nutricional dosável em exame de rotina, e é exatamente o tipo de dado que sustenta uma conversa objetiva no consultório.

A novidade genuína: o pai entra na conta

Até aqui, o aconselhamento pré-concepcional brasileiro tratava a nutrição paterna como assunto secundário. Esse estudo muda o tom da conversa.

A vitamina B12 paterna mostrou associação semelhante, ainda que atenuada, com razão de chances de 0,78 (IC 95% 0,68 a 0,91) na comparação de 295 contra 221 pmol/L, e a prevalência prevista caiu de 55,5 para 24,0 casos por 1.000 gestações entre as categorias paternas extremas.O editorial que acompanha o artigo, assinado por pesquisadores da National University of Singapore, lembra que alterações no epigenoma espermático decorrentes de folato insuficiente já foram ligadas a mais defeitos congênitos em modelos animais, e que o pai contribui não apenas com seu genoma haploide, mas também com seu epigenoma, reforçando a importância do status nutricional paterno pré-concepcional em nutrientes ligados ao metabolismo do carbono único. 2 Minute MedicineMedscape

Para quem atende planejamento reprodutivo, a implicação prática é direta: a consulta pré-concepcional deixa de ser uma consulta da mulher e passa a ser uma consulta do casal.

Deficiência de B12 é mais comum do que parece, sobretudo nos homens

Concentrações baixas de vitamina B12, abaixo de 221 pmol/L, ocorreram em 9,4% das mulheres antes da concepção, em 24,0% dos homens antes da concepção e em 30,6% das mulheres após a concepção. 2 Minute Medicine

Um em cada quatro homens da amostra chegava ao momento da concepção com B12 baixa. Como a deficiência de vitamina B12 costuma ser assintomática ou dar sintomas inespecíficos, ela só aparece quando alguém pede o exame. E quase ninguém pede B12 do parceiro na consulta pré-concepcional.

E o ácido fólico, continua valendo?

Continua, e o estudo reforça isso em vez de contradizer. Folato eritrocitário materno mais alto após a concepção também se associou a menor chance de defeito congênito, com razão de chances de 0,63 (IC 95% 0,55 a 0,72) na comparação de 906 contra 340 nmol/L, embora a associação atinja um platô nas concentrações mais altas. A B12 pós-concepção mostrou associação mais modesta, com razão de chances de 0,79 (IC 95% 0,64 a 0,97) na comparação de 443 contra 221 pmol/L. 2 Minute Medicine2 Minute Medicine

A leitura correta não é substituir o ácido fólico pela vitamina B12. É acrescentar a B12 a um protocolo pré-concepcional que hoje, na prática da maioria dos consultórios brasileiros, se resume ao ácido fólico.

Limitações que você precisa citar ao discutir o artigo

Trata-se de estudo observacional, e a associação não estabelece causalidade. Os próprios autores apontam limitações à generalização: possibilidade de confundimento residual, ausência de dados sobre polimorfismos genéticos relacionados ao folato e população predominantemente Han chinesa, vivendo em um contexto sem fortificação obrigatória de ácido fólico. 2 Minute Medicine

Esse último ponto merece atenção no Brasil, onde a fortificação de farinhas de trigo e milho com ácido fólico é obrigatória desde 2004. O status basal de folato da nossa população é diferente do da coorte chinesa, o que pode atenuar a magnitude do efeito por aqui. Já a parte da vitamina B12 tende a se manter relevante, porque a B12 não faz parte do programa de fortificação e porque dietas com baixa ingestão de proteína animal, uso crônico de metformina e uso prolongado de inibidores de bomba de prótons são realidades frequentes nos nossos consultórios.

O que aplicar na prática a partir de amanhã

Três movimentos concretos para a consulta pré-concepcional:

  1. Convidar o parceiro para a consulta. O aconselhamento pré-concepcional do casal deixa de ser cortesia e passa a ter respaldo em dado de desfecho.
  2. Dosar vitamina B12 dos dois, e não apenas o ácido fólico da gestante. O exame é barato, disponível e a prevalência de deficiência é alta o suficiente para justificar a investigação.
  3. Orientar meses antes, não semanas. A janela relevante do estudo foi de até 4 meses antes da concepção, o que significa que a orientação nutricional precisa acontecer na consulta em que o casal fala em engravidar, não na primeira consulta de pré-natal.

 

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Onde aprofundar essa competência

A leitura crítica de uma coorte prospectiva, a tradução de razão de chances em prevalência prevista e a incorporação de um biomarcador novo ao protocolo pré-concepcional são habilidades treináveis. Nas pós-graduações do FGMED, reconhecidas pelo MEC e voltadas exclusivamente a médicos com CRM ativo, esse conteúdo aparece de forma aplicada nas áreas que mais dialogam com o tema:

 

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